Dia Europeu dos Antibióticos | Carlos Palos (PDSP - 9.ª Edição)

Resistência antibiótica: a Pandemia silenciosa!

Celebra-se hoje o Dia Europeu dos Antibióticos, uma iniciativa do European Center for Disease Prevention and Control (ECDC), a Agência Europeia para a Saúde. Este dia constitui também o arranque da Semana Mundial dos Antibióticos, uma iniciativa da Organização Mundial da Saúde (OMS), cujo lema é “Antibióticos: use-os com cuidado”.

As bactérias têm-se tornado cada vez mais resistentes aos antibióticos, naquilo que chamamos resistência antibiótica. Este é um fenómeno inevitável de adaptação natural das bactérias, sobrevivendo aquelas que não são destruídas, ocorrendo sempre que expostas a antibióticos.

Ao contrário do que possamos pensar, dado que o primeiro antibiótico, a Penicilina, só foi descoberto por Fleming em 1928 e utilizado em larga escala após 1940, as bactérias resistentes existem desde há pelo menos 30.000 anos. A explicação é simples: os antibióticos existem na natureza.

As infeções causadas por estas bactérias são mais difíceis de tratar e muitas delas obrigam a internamentos hospitalares, com consequências mais ou menos graves para os doentes e com repercussões nos Sistemas de Saúde e na Sociedade em geral, constituindo um importante desafio em Saúde Pública.

Por estas razões, a resistência antibiótica é considerada uma Pandemia silenciosa, captando a atenção das Nações Unidas, de organismos como o ECDC ou o seu congénere americano, o CDC, e de governos por todo o mundo, numa abordagem multi-setorial conhecida como “One Health”.

Em 2015 e apenas no espaço europeu, terão ocorrido cerca de 670 000 infeções causadas por bactérias resistentes aos antibióticos, causando a morte a 33 000 pessoas e tendo associado um custo de 1.1 mil milhões de Euros.

Segundo as mesmas estimativas, nesse ano terão existido em Portugal cerca de 24.021 casos de infeções causadas por bactérias resistentes, resultando em 1.158 óbitos diretamente atribuíveis, o que traduzido em 66 e 3 casos diários, respetivamente.

No Relatório “Stemming the Superbug Tide-Just a few dollars more”, projeta-se que o impacto das infeções causadas por bactérias resistentes aos antibióticos no nosso país, para o período 2015-2050, mantendo a tendência atual, se traduzirá por cerca 13 óbitos/100.000 habitantes/ano (o terceiro pior valor da OCED), 800 dias extra de hospitalização/100.000 habitantes/ano e um gasto anual de 500.000 dólares/100.000 habitantes (o sétimo pior valor em ambos os casos).

A utilização apropriada de antibióticos é, pois, a medida mais importante para a redução da emergência de novas bactérias.

Os antibióticos só devem ser usados no contexto de infeções bacterianas e não de infeções virais, como por exemplo a gripe, constipações ou a COVID-19 não complicada. Não devem ser usados em colonizações bacterianas, como acontece nas bacteriúrias assintomáticas. E devem ser administrados na duração e via adequadas, privilegiando curtas durações e administração oral. Sempre que possível, a terapêutica deve ser precedida de estudos microbiológicos, o que é mais aplicável ao contexto hospitalar ou de institucionalização.

Outros profissionais de saúde envolvidos na cadeia do medicamento, nomeadamente os farmacêuticos e os enfermeiros, podem e devem contribuir na melhoria da utilização dos antibióticos.

Os cidadãos não devem efetuar tomar antibióticos sem prescrição médica e devem cumprir as recomendações dadas pelos médicos.

Finalmente, os decisores e os órgãos de gestão devem proporcionar os recursos tecnológicos essenciais à boa prescrição e monitorização da utilização de antibióticos, o que passa pela implementação de métodos analíticos simples para distinguir infeções bacterianas de infeções virais ou colonizações bacterianas nos diversos níveis de prestação de cuidados, métodos mais rápidos de identificação bacteriana, sistemas de informação para uma eficaz vigilância epidemiológica e sistemas de apoio à prescrição.

E, finalmente, é essencial que sejam proporcionados recursos humanos diferenciados para que se possam implementar as múltiplas atividades relacionadas com o controlo de infeção e a prescrição de antimicrobianos, seja a nível local, seja a nível regional e nacional, com estruturas devidamente alicerçadas.

Segundo o já citado “Stemming the Superbug Tide”, a implementação de medidas visando a melhoria da higienização das mãos e das instalações das unidades de saúde, assim como a implementação de programas de apoio à prescrição de antimicrobianos (antimicrobial stewardship) pode prevenir 27 000 mortes anuais no espaço europeu e permitir uma poupança anual de 1,4 mil milhões de euros em apenas um ano de implementação.

Ao contrário da COVID-19, a Pandemia associada à resistência antimicrobiana persistirá enquanto existirem humanos e bactérias!

Carlos Palos

Programa de Doutoramento em Saúde Pública - 9.ª Edição

ca.palos@ensp.unl.pt

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