Dia Mundial da Ciência / Dia Nacional da Cultura Científica | Carolina Torres, Fábio Gomes (CMSP- 22.ª Edição)

A palavra “ciência” deriva, do ponto de vista etimológico, do latim scientia, que significa “conhecimento” ou “saber”. Representa todo o conhecimento adquirido ao longo da História, através do estudo ou da prática. É, por isso, um património acumulado e partilhado entre gerações, em constante crescimento.

O dia 24 de novembro assinala, em todas as nações, o Dia Mundial da Ciência, com o objetivo principal de destacar o enorme valor deste legado no desenvolvimento humano, bem como a importância do progresso científico contínuo. No mesmo dia, celebra-se em Portugal o Dia Nacional da Cultura Científica, procurando realçar a importância do conhecimento científico para o crescimento e desenvolvimento de Portugal e dos seus cidadãos.

Curiosamente, comemora-se também nesta data o Dia da Evolução, assinalando o aniversário da publicação de A Origem das Espécies (divulgada ao Mundo em 1859). A obra seminal de Charles Darwin, resultado do trabalho e investigação desenvolvidos pelo autor durante mais de duas décadas, persiste como um dos maiores legados científicos deixados à Humanidade.

A busca pelo conhecimento é inata para o ser humano. Começámos a produzir ciência no nosso primeiro dia como espécie sapiente. Naquele dia, como hoje, a ciência foi a alavanca do progresso e da evolução. É interessante realçar que a ciência é anterior à existência da escrita, ou de qualquer outra forma de registo do saber. Resulta, em primeiro lugar, da partilha e do ensinamento, transmitido de geração em geração. Por isso, a produção de ciência só é possível em sociedade. A ciência é, de todas as conquistas humanas, a mais partilhada. É representação da coesão entre as pessoas, e da atuação conjunta em prol do bem comum.

Por todas estas razões, só faz sentido fazer ciência com o envolvimento da comunidade. A ciência deve ser levada até às pessoas e fomentada, em primeiro lugar, pelas suas necessidades. A comunidade é o verdadeiro agente da mudança. Pensemos, por exemplo, nas questões atuais relacionadas com as alterações climáticas e a perda de biodiversidade. Ainda mais atual, a pandemia de COVID-19 que enfrentamos neste preciso momento. Em todas estas áreas, é necessário gerar conhecimento, para perceber o fenómeno e os seus mecanismos causais. No entanto, a mudança só ocorre quando o conhecimento é colocado em prática pela sociedade. Toda a investigação é inerte se não resultar em intervenção, em mudança de hábitos, em ação. E todos nós somos executores da ciência.

Assim, importa combater algumas das barreiras que se opõem à livre produção e divulgação do saber. Portugal continua a ter, apesar do longo caminho percorrido, uma cultura (económica, social e histórica) pouco voltada para o apoio à investigação. Muita da investigação científica nacional é feita em contexto académico, enquadrada em teses e dissertações dos alunos das Escolas e Faculdades nacionais. A dedicação profissional à investigação, como carreira, é diminuta. É habitualmente exercida por profissionais que acumulam diversas funções, numa ou mais instituições, com inevitável prejuízo do tempo efetivamente dedicado à produção científica. Por outro lado, o acesso a bases de dados é muitas vezes dificultado por exigências burocráticas e atraso na obtenção de autorizações. No campo da saúde, em particular, é frequente que a natureza mais sensível dos dados dificulte ou retarde o acesso, mesmo quando cumpridos os pressupostos ético-legais.

É ainda fundamental apostar na inovação científica, evitando estudar os mesmos assuntos uma e outra vez, comprovando o que já reuniu consenso. A investigação deve, tanto quanto possível, servir uma necessidade, e não apenas ser uma etapa curricular do investigador. Por fim, é essencial que se publique, e que se divulgue o trabalho realizado com o maior alcance possível. Cada vez faz mais sentido apostar em plataformas open access, que permitem um acesso livre, abrangente e democrático à informação (a chamada “ciência aberta”).

A ciência aberta visa colocar a informação científica à disposição de todos, tendo inúmeras vantagens. Além de contribuir para a igualdade de oportunidades, estimula o compromisso com a cultura científica, promove a transparência e a aumenta a responsabilidade na produção de conhecimento. Esta abordagem inclusiva vai de encontro aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, enquadrados na Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas.

Num mundo cada vez mais global, é ainda mais relevante que o conhecimento seja partilhado. Hoje, o que se investiga numa parte do planeta é, com grande probabilidade, pertinente nos seus antípodas. A era digital em que vivemos é altamente facilitadora desta permuta.

O Dia Nacional da Cultura Científica foi instituído em Portugal em 1996, como forma de comemorar anualmente o aniversário do nascimento de Rómulo de Carvalho (poeta, professor, investigador e autor de diversos livros, incluindo manuais escolares). Rómulo de Carvalho dedicou parte da sua vida a levar a ciência até junto das pessoas, sobretudo as gerações mais novas.

No dia em que o antigo Ministro da Ciência e Tecnologia, José Mariano Gago instituiu o Dia Nacional da Cultura Científica, escreveu: “Hoje é, mais que nunca, imperioso lutar por uma cultura científica viva e crítica, estudiosa, partilhável e disponível, fonte de cidadania e de libertação.”

Hoje, volvidos 24 anos, devemos relembrar e cultivar os mesmos valores. É fundamental aproximar a ciência da sociedade. O público deve ser chamado para a discussão das questões emergentes. Devem ser reforçados os apoios e parcerias com as universidades, as escolas, os institutos e demais instituições científicas do país. Deve ser promovida a participação das autarquias e das empresas, a colaboração entre o setor público e privado. A ciência deve ser levada até aos decisores políticos, mas também estar exposta nos museus e divulgada nos meios de comunicação social. A ciência deve ser uma rede que permita, individual e conjuntamente, fazer a diferença e contribuir para o bem comum.

Fábio Sousa Gomes

Curso de Mestrado em Saúde Pública - 22.ª Edição

fr.gomes@ensp.unl.pt

Carolina Torres

Curso de Mestrado em Saúde Pública - 22.ª Edição

ci.torres@ensp.unl.pt

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