Dia Mundial da Prevenção do Suicídio | Joana Ramos (CEAH - 49.ª Edição)

O suicídio é um fenómeno multifacetado e complexo, identificado desde os primórdios civilizacionais. A relação com a interpretação da morte, a dificuldade em abordar o tema, o estigma, leva a que este seja por vezes negado ou tenha conotações diferentes, como por exemplo a visão filosófica dos tempos da Grécia antiga, onde era visto com honra e exercício de livre arbítrio. Em 1897, decorrente dos seus estudos, Durkheim evoca a dimensão sociológica do problema. Refere que o ato individual é o resultado do meio social que o cerca, ou seja, da relação dos indivíduos e a sociedade. Porém, à data, é visto como fruto da interação de múltiplos fatores: filosófico, antropológico, biológico, psicológico e social.


É pois, um tema difícil e controverso na sociedade. No entanto bastante presente, sendo que os últimos dados referem que em termos globais, a mortalidade por suicídio aumentou 60% nos últimos 45 anos. Situa-se entre as dez principais causas de morte, considerando todas as faixas etárias, e entre as duas ou três mais frequentes em adolescentes e adultos jovens. Com a agravante de que em tempos de crise, como os que vivemos, esses números tendem a aumentar. Assim, os comportamentos auto-lesivos e atos suicidas representam um grave problema de saúde pública, sendo importante o seu debate e o desenvolvimento de estratégias de prevenção e tratamento adequadas.


As estratégias de prevenção implicam interações e sinergias diversas, entre sectores, culturas e profissões diferentes, tendo em nota que o núcleo central de planeamento e operacionalização deverá ser o sector da saúde. Por tal, já em existe o Plano Nacional de Prevenção do Suicídio (PNPS) da DGS, que aborda estas questões e as várias dimensões do problema. Todavia, a dimensão da saúde mental é sempre um desafio, ao não englobar só componente saúde, mas sim, individual e social. Os baixos níveis de literacia na área e o estigma social vigente serão, na minha opinião, condicionantes para a problemática e para os pedidos de ajuda que pessoas com ideação suicida poderão fazer. Esforços para colmatar estas área deverão ser encetados, não só políticos, mas, individuais. E, a educação para tema, promoção do debate sobretudo nas camadas mais jovens poderá ser determinante, citando o PNPS a “criação de sinergias entre a escola, a família, os serviços de saúde e a comunidade, favorecendo uma visão ecológica e integradora”.

Convém ressalvar que a saúde mental difere da doença mental e, não se devem confundir ou estigmatizar, pois o preconceito por vezes impede o pedido de ajuda. Manter saúde mental é uma prevenção e deveria fazer parte do quotidiano de cada um, sobretudo em tempos de Pandemia onde o medo e o isolamento social são fatores de risco para desenvolvimento de doença mental. Pode ser feito em pequenos atos, rotinas como caminhadas, um hobbie, entre outros, que promovam o nosso bem-estar psicológico. Por outro lado, o sofrimento emocional é grave, silencioso e afeta todas as dimensões da pessoa podendo repercutir-se na relação com familiares, com o trabalho, até na maneira como nos olhamos, levando a alterações na nossa forma de estar e ser que possam por vezes não são percebidas pelas pessoas que vivem o problema. Daí o desafio que a doença mental impõe e a importância da rede familiar e social nestes problemas. Reveste-se de importância a literacia para o tema, para que possamos identificar estes comportamentos e não os estigmatizar, oferecendo ajuda a quem precisa e não sabe. Em sociedade, todos podemos contribuir para o bem-estar de todos.

Joana Ramos

Curso de Especialização em Administração Hospitalar - 49.ª Edição

jag.ramos@ensp.unl.pt

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