Dia Mundial da Raiva | José Coucelo (CMSP - 21.ª Edição)

Assinala-se a 28 de Setembro o Dia Mundial da Raiva. Doença viral, de carácter zoonótico e fatal, contudo prevenível por vacina. Podia ser esta a breve introdução da raiva à comunidade.

Embora possa parecer pouco significativo assinalar o Dia Mundial da Raiva no contexto português, indemne desde 1961, a raiva é uma doença problemática a nível global, presente ainda em cerca de 150 países.

Com efeito, estima-se que a raiva seja responsável pela morte de uma pessoa a cada 9 minutos. Por ano, o número ascende a quase 60 mil mortes – e destas, a maioria diz respeito a crianças com idade inferior a 15 anos.

Seria de esperar que 135 anos após a primeira formulação de uma vacina antirrábica (por Louis Pasteur, em 1885), que o cenário atual fosse bastante diferente. Na realidade, e em semelhança a outras doenças, negligenciada e associada a pobreza, é sobretudo em áreas rurais de países africanos e asiáticos que se encontram as regiões mais afetadas por raiva.

Contudo, é também nestes locais que nas últimas décadas se têm feito progressos significativos no controlo e erradicação da doença. Tão significativos, ao ponto da Organização Mundial de Saúde (OMS) em conjunto com outras entidades, participar no desejo de alcançar, até 2030, zero mortes humanas por casos de raiva.

E é neste objetivo, desejavelmente alcançável, que sobressai a importância do conceito e de abordagens “One Health” – da harmonização dos esforços multidisciplinares para salvaguarda da saúde humana através da proteção da saúde animal.

A transmissão da raiva pode ocorrer virtualmente através de qualquer mamífero, onde se incluem diversos animais selvagens e silvestres. No entanto, a transmissão da doença a humanos ocorre principalmente através da mordedura de cães infectados, ou através do contacto com a saliva destes animais.

E apesar de existir profilaxia para humanos, pré e pós-exposição ao vírus da raiva, está demonstrado que a vacinação em massa da população canina é o método mais eficaz, e eventualmente menos dispendioso, de controlo da doença na população humana. Além disso, a maioria das populações em risco, dada a pobreza, não têm acesso à profilaxia humana, cuidados de saúde ou a meios financeiros para a procurar.

Assim, o que se pretende através de ações de vacinação animal, é que a vacinação de cerca de 70% da população canina nestes locais afetados, possa garantir a proteção da totalidade da população humana em risco.

Não obstante a vacinação, a educação das populações em risco para o perigo da doença, e o conhecimento do comportamento dos animais infetados faz parte integral do combate antirrábico. É, desta forma, exigida uma colaboração e comunicação entre as várias vertentes da saúde humana e animal, para o controlo da raiva.

No que diz respeito a Portugal, relembrando que tal como outras doenças infecciosas contemporâneas, o vírus da raiva não conhece fronteiras. E é por isso importante congratular o trabalho realizado pelas entidades nacionais na garantia da sua condição de país livre de raiva, e celebrar o Dia Mundial da Raiva como forma de educação e consciencialização da população para uma doença tão grave, e evitável.

Em Portugal, existe a obrigatoriedade legal de vacinação antirrábica de todos os cães com mais de 3 meses que habitem o território nacional. E ainda que na sua maioria, a vacinação esteja a cargo dos seus detentores, existem campanhas de vacinação antirrábica a cargo dos municípios e abertas à população em geral.

No contexto dos países mais afetados por raiva, atendendo ao esforço financeiro implicado, os meios para a vacinação da população canina têm um apoio considerável de diversas ONG’s e entidades privadas e internacionais. Desta forma, a consciencialização dessa necessidade de apoio é uma ferramenta importante para o combate à doença.

Existem diversas iniciativas com apoio da GARC, da OIE, FAO, ONG’s e privados, com foco na vacinação de animais e educação da população em zonas de risco. A Mission Rabies http://www.missionrabies.com/ é um desses exemplos, e nesta plataforma podem ser encontradas as mais diversas formas de apoiar a causa e lutar pela erradicação da raiva.

Tal como sugerido neste dia, termino com #rabies ends here – através da partilha de conhecimento e da mensagem de vacinação animal para a proteção de ambos.

 

 

Referências:

https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/rabies

https://www.oie.int/fileadmin/Home/eng/Animal_Health_in_the_World/docs/pdf/Self-declarations/2019_01_Portugal_Rabies.pdf

https://rabiesalliance.org/policy/united_against_rabies

José Coucelo

Curso de Mestrado em Saúde Pública - 21.ª Edição

jmc.coucelo@ensp.unl.pt

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