Dia Mundial da Saúde Mental | Joana Ramos (CEAH - 49.ª Edição)

O Dia Mundial da Saúde Mental é celebrado desde 1992. A Federação Mundial de Saúde Mental tenta por o tema na agenda no intuito de centrar a atenção da opinião pública e poder debatê-lo como uma causa comum a todos, dado o subinvestimento crónico que esta área em parte pelo estigma que a associam.

Este ano vivemos circunstâncias específicas inerentes à Pandemia, criou-se pois, uma oportunidade única de explorar o tema, pela necessidade que surgiu no que diz respeito ao impacto psicológico que as alterações da rotina podem ter mesmo em indivíduos saudáveis.

Isto é, passou-se se não só a considerar como âmbito a doença mental mas, como determinante social a saúde mental individual – o bem estar psicológico para que o indivíduo consiga desempenhar a suas tarefas e seja produtivo em sociedade.

Todavia, embora o tema esteja presente na agenda pública com regularidade, ainda carece de incutir-lhe uma visão de normalidade, ou seja, abordar e debater saúde mental tal e qual como o faríamos para outras doenças como Diabetes ou Hipertensão. Sabemos que não acontece. Ainda não há uma paridade entre esta e saúde física, levando inevitavelmente ao desinvestimento na área.

Vejamos um caso prático comparando a comparticipação de medicamentos em ambas doenças crónicas: na área da Diabetes estes rondam os 100% e, na Psiquiatria há uma variabilidade maior com um máximo de 90%, quando muitas vezes estes abarcam as classes sociais mais frágeis e desfavorecidas. Mais ainda, deveria ser pensado um modelo organizacional diferente dos serviços de Saúde Mental, que não contemplassem somente tratamento individual, mas sim modalidades comunitárias onde a disrupção fosse mínima para os utentes. Isto porque, neste área é de extrema importância considerar a dimensão individual de cada um. O individuo não se pode dissociar do seu meio e este influencia os seus comportamentos.

Logo, viver num cultura em que se respeita a individualidade de cada um, em que esta não se pode dissociar da sociedade em que estão inseridos, que doença não é sinónimo de comportamento e, que devemos perceber e educar primeiro sobre os temas, serão medidas que poderão contribuir para diminuir o estigma, incutir a visão de normalidade, em que as pessoas não estão doentes porque querem ou “basta a força de vontade para melhorarem”.

Não se consideraria usar esse conselho a quem parte um membro, pois um “osso não se cura por força de vontade”. Por quê aplicá-lo a doença mental? Se tal não for conseguido, irá se refletir no facto de os utentes terem dificuldade em pedirem ajuda e na falta de capacidade de saber interpretar nos outros quem precisa desse auxilio.

Neste Dia Mundial da Saúde Mental, não importa debater tanto as medidas ou o diagnóstico do que tem de ser feito em Portugal, visto muito destas medidas estarem já explanadas no Plano Nacional de Saúde Mental. Importa sim perceber o porquê de ainda não terem sido implementadas se sabemos o que tem de ser feito? Perceber que tem de haver paridade entre as doenças e os seus tratamentos e, que a falta de deteção das doenças ou o seu tratamento eficaz pode não ser um questão de recursos em saúde, mas sim uma questão cultural em que o estigma e a falta de literacia ainda impedem a mudança.

Joana Ramos

Curso de Especialização em Administração Hospitalar - 49.ª Edição

jag.ramos@ensp.unl.pt

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